quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Via Costeira: após duplicação, número de acidentes cresceu 22% neste ano




Duplicada para aumentar a segurança dos motoristas, a Avenida Dinarte Mariz - mais conhecida como Via Costeira - parece não conseguir cumprir o seu papel. De janeiro a outubro deste ano, segundo dados do Comando de Policiamento Rodoviário Estadual (CPRE RN), foram registrados 83 acidentes de trânsito, um número 22,05% mais alto que o mesmo período antes da realização da obra. Nos dez primeiros meses de 2009, foram 68 acidentes; no ano passado, 77. Erros na infraestrutura e a imprudência de muitos motoristas são os principais motivos para a elevação nos números.


O número de feridos também aumentou (apesar de estar estável desde o ano passado): há dois anos foram 11, enquanto em 2010 e 2011, 18 pessoas foram feridas até outubro. A quantidade de mortos, porém, diminui já que este ano só foi registrado um acidente fatal enquanto no ano passado foram três vítimas e, em 2009, quatro. Não é preciso entender de engenharia de trânsito para saber que a "nova" ViaCosteira foi mal projetada. O primeiro item que falta a ela é o acostamento, equipamento necessário para o caso de algum imprevisto onde o condutor precise parar o veículo. As curvas que já apresentavam perigo pelo próprio traçado do Parque das Dunas aumentaram a sinuosidade após a obra. Isso porque foram instaladas dez rotatórias que ampliaram o risco de acidentes para quem vem no sentido Praia do Meio/Ponta Negra. A entrada para o Centro de Convenções é uma das mais perigosas já que o motorista tem pouca visibilidade no momento de cruzar a avenida.


Apesar do limite de velocidade ter sido reduzido para 70km/h (antes, o máximo permitido eram 80km/h), os meio-fios são testemunhas dos constantes acidentes: ao longo de todo trecho há barreiras destruídas após carros subirem e as bases dos postes caídos são prova de que ali, algum motorista perdeu o controle.


Quatro redutores controlam a velocidade no sentido Ponta Negra/Centro. No retorno, são três aparelhos.


Diariamente, cerca de 500 bugues trafegam pela Dinarte Mariz. O presidente do Sindicato dos Bugueiros Profissionais do Estado (Sindibuggy), Paulo Severo, acredita que a duplicação trouxe melhorias para os motoristas, mas as curvas muito fechadas são o principal risco.


Ele acredita que, somente este ano, já ocorreram dois ou três acidentes envolvendo bugueiros justamente devido esse problema. "É preciso muita cautela principalmente quando se vai em direção a Ponta Negra porque o risco de colisão aumentou já que a pista é estreita". Para o coronel Francisco Canindé Freitas, comandante do CPRE, a Via Costeira não é perigosa. Ele aponta vários fatores que explicam o aumento dos acidentes no trecho. Entre eles estaria o aumento da frota de veículos em Natal, além de um crescimento no fluxo de turistas - que utilizam particularmente a avenida para chegar ao Litoral Norte. Além disso, a falta de prudência dos condutores é um agravante. "Perigosos são os motoristas. Vários acidentes poderiam ser evitados caso o limite de velocidade fosse respeitado. Como a Via Costeira é um acesso às praias há também muitos casos de acidentes provocados por embriaguez, principalmente, durante o fim de semana".


Na tentativa de minimizar o problema, o coronel Freitas explica que a Operação Verão vai fiscalizar o uso do álcool ao volante. Segundo ele, serão 68 bafômetros para realizar esse trabalho no Rio Grande do Norte. 


Falta de urbanização é um dos problemas


Além dos problemas de infraestrutura, a Via Costeira também carece de uma urbanização adequada. Após chuvas intensas, o novo calçadão chegou a ceder nas proximidades das obras de um hotel. Uma obra para conter a destruição foi feita, mas o serviço parou no contrapiso sem nenhuma explicação. Outro ponto que nunca foi melhorado foi o ajardinamento do canteiro central. Em todo o trecho o mato cresce livremente sem que nenhum serviço de retirada seja feito. Nas rotatórias, há jardins bem cuidados em seis delas; outras quatro não são cuidadas. Ontem, a areia tomava conta de um trecho de pista entre os hotéis Ocean Palace e Serhs aumentando o risco de acidentes.


O Departamento de Estradas de Rodagem do Estado (DER RN), responsável pela obra de duplicação, foi procurado pela reportagem para comentar os problemas e apontar possíveis soluções. No entanto, o diretor do órgão, Demétrius Torres, estava viajando. O diretor de obras, Jonas Barbosa, foi procurado através do celular, mas não atendeu as ligações feitas até ofechamento desta edição.


Entre o meio ambiente e a segurança


Um dos pontos polêmicos no projeto de duplicação da Via Costeira foi o risco que a ampliação poderia trazer para o Parque das Dunas. Enquanto o governo do estado defendia, em seu projeto inicial, que a ampliação utilizasse um trecho da área protegida para instalar a ciclovia, ambientalistas se manifestaram contra esse possibilidade. Cedendo aos apelos das entidades de defesa do meio ambiente, o poder público colocou a pista para bicicletas próximo à beira-mar.


"Diante do radicalismo ambiental, muitas vidas estão sendo perdidas na Via Costeira", afirma o presidente do Natal Convention Visitors & Bureau (NCVB), George Costa. Ele lembra que a entidade foi uma das poucas a participar das discussões sobre o projeto antes dele sair do papel e, muitos erros já foram percebidos desde aquele momento. "Só o fato de não haver um acostamento já representa um grande risco aos visitantes. As pessoas que defendem o Parque das Dunas deveriam olhar com mais cautela para os números e perceber que alguns metros utilizados de maneira adequada poderiam evitar os problemas de hoje", comenta.


O presidente da Associação de Ciclistas e diretor da ONG Baobá, Haroldo Mota, defende uma postura diferente. Embora ele concorde que a atual formatação da Via Costeira prejudica tanto motoristas, quanto ciclistas, Mota acredita que não seria necessário utilizar nenhum trecho do Parque das Dunas para que a obra ficasse adequada. "Hoje utilizamos 3 ou 4 metros. Daqui há dez anos, vamos precisar de mais quantos metros?", questiona.


Ele defende que mais investimentos em transporte público para diminuir a quantidade de veículos nas ruas. Além disso, ciclovias em um trecho como a Via Costeira - que interliga a Zona Sul à Zona Leste da cidade - seriam muito importantes para estimular os natalenses a deixarem o carro em casa. No entanto, o espaço não ficou adequado na opinião dele. "O ideal era que a ciclovia fosse no asfalto e bem sinalizada. E não seria necessário utilizar o Parque das Dunas. Se retirassem o canteiro centralpoderiam haver quatro faixas com mais espaço, por exemplo, o que daria lugar também a uma ciclovia bem construída". 

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